quarta-feira, 20 de junho de 2012

Almas Mortas: canto do cisne decadente


O cinema teve dois grandes expoentes do terror, que foram verdadeiros divisores de água do gênero.  O primeiro deles foi realizado por Alfred Hitchcock, em 1960.”Psicose” se consolidou como a maior bilheteria do diretor britânico e tornou-se icônico pela cena do esfaqueamento no chuveiro.

Em 1973, o novato William Friedkin dirigiu o mais horripilante filme de terror da história, até então. “O exorcista” varou o século 20 como um registro inédito e arrebatador da menina que é possuída pelo demônio. Cultuado até hoje, o filme ainda mete medo em muita gente.

Psicose de Hitchcock, o terror pioneiro e icônico
O grande sucesso de ambos os filmes rendeu inúmeras menções, homenagens e sequências nas mais diversas mídias. De lá pra cá, nada de muito inovador aconteceu no meio, salvo exceções, como filmes de baixa renda e alto retorno financeiro. Neste grupo estão “A Bruxa de Blair” e a franquia “Atividade Paranormal”, que mais funcionam como documentários realísticos de momentos de terror envolvendo “gente de verdade”, e registrado por câmeras amadoras.

Há, claro, longas de terror que precederam Psicose e O Exorcista. O clássico Nosferatu, personagem-título que é o avô dos vampirescos atuais, data da segunda metade dos anos 20. O astro Vincent Price, que ficou marcado pelos seus personagens sinistros na telona, atuou em vários filmes de horror. Atuou neste gênero nos anos 50, 60, 70 e 80. No final de sua carreira foi convidado para narrar o clipe “Thriller”, de Michael Jackson.

Já a estrela Joan Crawford, premiada com o Oscar de Melhor Atriz por “Alma em Suplício” (1945), encerrou sua longeva trajetória artística protagonizando filmes de terror de baixo orçamento.  Crawford resolveu investir nesse gênero após o estrondoso sucesso de “O que terá acontecido a Baby Jane?” (1962), poderoso suspense em que ela atuou ao lado de Bette Davis. Em 1964, a lendária atriz viveu a personagem principal do horripilante “Almas Mortas”.

Dirigido pelo excêntrico William Castle, o filme narra a história de Lucy Harbin (Crawford), que ao chegar mais cedo de viagem, se depara com o marido e a amante em sua cama. Sem mais delongas, Lucy mata os dois a machadadas. A filha Carol, com poucos anos de idade, presencia as cenas brutais e sanguinolentas. Lucy é considerada louca e internada em um sanatório. Vinte anos depois, recebe alta e é hospedada pelo irmão, em seu sítio. Mas novos (e inesperados) assassinatos a machadadas começam a ocorrer nas redondezas, e claro, o suspense está montado.

Quem te viu, quem te vê: a grande Joan Crawford interpretan-
do o papel de uma assassina louca em um filme B. Vinte anos
antes ela era a mocinha em uma sequência de bons e premiados
filmes.
A primeira vez que assisti esse filme foi em 2008, e suas cenas, bem como os gritos de Joan Crawford, ficaram na minha cabeça por bastante tempo. Apesar de ser, inevitavelmente, um filme ruim, é um grande divertimento e não deixa de ser assustador. Confesso que, se um dia, eu realizar o meu grande sonho de ser um cineasta, adoraria fazer um remake dessa pérola do cine B. Se isso fosse hoje, escalaria Nicole Kidman, ou melhor ainda, Penélope Cruz, para encarnar o papel principal. Poderia até não ser um filmaço, mas o faria por pura diversão, assim como Scorsese fez em 91, regravando o terror clássico de 1961, “Cape Fear”.

Na época das gravações de “Almas Mortas”, o diretor Castle disse que o papel de Crawford lhe renderia seu segundo Oscar. Ele estava redondamente enganado. Nem Oscar, nem Globo de Ouro, nem sequer uma mísera indicação a nenhum prêmio de cinema. No filme, Crawford está por vezes caricata, mas sempre com atuação firme e competente. Ela teve carta-branca e chegou a escolher o figurino e parte do elenco. Hoje, pouca gente se lembra da magnitude de Joan Crawford. E pouquíssimos conhecem “Almas Mortas”. Mas os verdadeiros fãs da atriz nutrem uma verdadeira paixão pelo filme, mesmo sabendo que está longe de ser ótimo.

Dali pra frente, Crawford seria dirigida mais uma vez por Castle, no suspense juvenil “Eu vi que foi você” (1965) como uma mera coadjuvante (e ainda por cima desnecessária no andar da história). Seu canto de cisne foi deplorável, mas ela ainda era a figura principal dos igualmente horríveis Berserk (1968) e Trog (1970). A considerar que Crawford foi a atriz que mais “vendia” nos anos 30 e uma das mais bem sucedidas na década seguinte, foi um final de carreira literalmente de dar medo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: nostalgia, recordes e perna de fora :)

A 84ª entrega de prêmios do Oscar ficou marcada por ser uma verdadeira declaração de amor ao passado e à nostalgia. Dentre os principais indicados estavam "A invenção de Hugo Cabret", do mestre Scorsese, e o francês "O Artista", que por sinal faturou o prêmio de Melhor Filme. Ambos arrebataram cinco estatuetas cada um. No entanto, os prêmios técnicos ficaram com "Hugo", enquanto os de elenco (Ator, Diretor) foram para "O Artista". O filme francês é o primeiro longa mudo e preto e branco a receber o principal prêmio da Academia desde os anos 20. Já o filme de Scorsese rememora as primeiras técnicas e artifícios do cinema, ao narrar as aventuras do garoto que dá nome à trama. Ambas as obras garantem ser primorosas. Em tempo: eu não assisti nenhum dos 9 indicados à Melhor Filme deste ano.

Dujárdin, Streep, Spencer e Plummer: os atores vencedores
A cerimônia da Academia deu (finalmente) o terceiro - e merecido - Oscar para a versátil Meryl Streep, que deu vida à ex-primeira-ministra britânica Margareth Thacher, um ícone da liderança feminina. O prêmio de Melhor Ator Coadjuvante foi para Christopher Plummer, no papel de um idoso que se assume ser gay para a família em "Toda forma de amor". Um recorde. Plummer é o homem mais velho a ser agraciado com o Oscar, aos 82 anos. Por coincidência, um de seus concorrentes, Max von Sydow (Tão forte e tão perto) tem a mesma idade. A relativamente novata Octavia Spencer faturou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por "Histórias Cruzadas", drama com elenco feminino que retrata a relação entre mulheres brancas e negras na década de 50. E para os brasileiros, uma decepção. Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, indicados ao Oscar de melhor canção original por "Real in Rio", da animação Rio, perderam para o seu único concorrente, a música do filme Os Muppets

O Oscar 2012 passou longe do fiasco de 2011. A cerimônia do ano passado foi apresentada pelos carismáticos James Franco (127 horas) e Anne Hathaway (O casamento de Rachel). No entanto, não rolou química entre os dois jovens atores ao desenrolar da apresentação. Neste ano, Billy Cristal (A máfia no divã) foi o anfitrião do show, pela nona vez. E se deu bem. Mas não tão bem quanto o vestido atrevido (até rimou) de Angelina Jolie, cujo decote deixava sua perna direita totalmente descoberta. A sua pose foi imitada pelos produtores de Os descendentes, que faturaram o prêmio de roteiro que Jolie estava apresentando. E mais: a perna da senhora Brad Pitt virou hit na internet e, na mesma noite, ganhou um perfil com mais de 12 mil seguidores no Twitter.

A transmissão em SAP, feita pela TNT Brasil, é infalivelmente de se tirar o chapéu. No entanto, o entendido Rubens Ewald Filho tropeça em seus comentários, por vezes inadequados. O longa iraniano A separação venceu na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Rubens estranhou que mesmo sendo o favorito, era estranho "a Academia premiar um filme de uma nação inimiga". Ora, mas o que está em jogo no Oscar não seria a qualidade das produções artísticas indicadas? Fatores externos a isso devem ser ignorados. 

Nos especiais da cerimônia estavam uma belíssima apresentação do elenco do Cirque de Solleil. E também uma montagem da quase centenária história do cinema e de como, apesar de toda a sua evolução (e decadência), ainda é muito lembrado por todas as gerações. 


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Os melhores filmes de suspense e terror dos anos 2000

Segue, sem ordem de importância, o meu ranking pessoal (estou sendo redundante para realçar que a lista se trata estritamente da minha opinião) de alguns dos melhores filmes de suspense e terror da década passada. Há quem diga - e como dizem - que a vida inteligente de Hollywood está se rareando em uma velocidade rápidíssissima. Eu sinceramente creio que há cada vez menos coisa pra se inventar, e por isso a originalidade nas telonas muitas vezes demora pra dar as caras nos dias de hoje. Mesmo assim, é pra lá de satisfatório quando surgem agradáveis surpresas da sétima arte para o público. E acontece. Confira abaixo, algumas pérolas contemporâneas do suspense e do terror cinematográfico (relembrando: sem ordem de importância) em uma lista curta e simbólica.

Revelação (2000)

"Revelação", de Zemeckis, reúne dois astros inexperientes do terror: Harrison Ford e Michelle Pfeifer. O resultado é um filme verdadeiramente admirável.
O filme do experiente diretor Robert Zemeckis (Forrest Gump) com certeza não se destaca pelo seu nome. O título original também não é dos melhores: What lies beneath (O que vem abaixo). Mas é mesmo uma grande revelação que dá a reviravolta máxima na vida dos personagens de Michelle Pfeifer e Harrison Ford. Pfeifer vive uma esposa perturbada por assombrações em sua própria casa. Além disso, ela também crê que seu vizinho é um assassino. Esta quase obsessão por observar a vida de quem mora ao lado só dura o início do filme, e lembra em muito, o Janela Indiscreta de Hitchock. Mas ainda assim é um grande filme que consegue ser tão bom em reunir dois astros inexperientes no terror. A crítica especializada afirmou que Revelação faz com a banheira o que (de novo) Hitchcock fez com o chuveiro, em Psicose. E é verdade. Guarde bem essa informação: mais pro final do filme, após a então revelação, tem a cena da banheira, que é magnificamente tensa e bem realizada. E mesmo com tanta angústia e violência, o filme tem um belo final.

Os outros (2001)

Um dos filmes mais lembrados da estrela Nicole Kidman merece, de fato, esse destaque. Na
história, que se passa nos EUA dos anos 40, ela é Grace Stewart, uma dona de casa muitíssimo
religiosa e extremamente dedicada unicamente ao seu lar e seu casal de filhos. Seu marido tinha ido à guerra e não regressou.

O grito de Nicole Kidman na cena inicial de "Os Outros" é arrepiante. O filme é excelente.
Não bastasse isso, Grace contava com dois outros problemas. Seus antigos criados haviam a deixado há pouco mais de uma semana, sem explicação e sem pegar as suas contas. E os seus filhos, Anne e Nicholas, vejam só, sofrem do mesmo mal: fotossensibilidade. Bastam poucos minutos em contato ao sol, para que a pele dos dois se encham de bolhas e fortes alergias. Devido à isso, Grace contém a luz como água na sua casa. Ao chegar três novos criados, ela é categórica: "é proibido abrir uma porta sem trancar a anterior". Esta escuridão necessária dá um toque todo especial na trama. Com o passar desses dias, a personagem de Kidman sofrerá diversas alucinações e presenciará a filha afirmar que não estão sozinhos em casa, e sim, rodeados por espíritos. O desfecho é bastante reflexivo e bota em cheque até mesmo as questões de cunho
religioso.

O quarto do pânico (2002)

O ótimo diretor David Fincher já tem em seu currículo vários clássicos modernos. Como que
m tem o toque de midas, em que tudo que se faz vira ouro, Fincher coleciona verdadeiras pérolas
contemporâneas, como Seven, A Rede Social e o mitológico Clube da
Jodie Foster é uma mãe disposta a tudo para proteger a sua filha em "O quarto do Pânico"
Luta. Um de seus filmes menos conhecidos - e nem por isso menos bom - conta com a competente Jodie Foster no papel principal. Ao se mudar de casa com a filha, a personagem de Jodie se depara com uma casa linda e enorme, bem no centro da cidade. Mas logo na
primeira noite, a ironia do destino dá as caras. Três bandidos invadem a casa para pegar o dinheiro roubado que haviam escondido por ali. A mãe se dá conta à tempo e se esconde com a filha no
cômodo que dá nome ao filme. O local, impenetrável sem a chave, parecia ser o porto seguro das duas. E, com relação à revestimento e
segurança, realmente é. Mas acreditam que a ironia do destino é
ainda mais intrometida do que imaginávamos? O dinheiro desejado pelos rapazes está justamente no quarto do pânico. A partir daí, através do sistema de interfone e do circuito de câmeras, começa uma inusitada negociação entre as donas da casa e os três bandidos, que aliás, representam brilhantemente uma metáfora do mundo moderno em uma escala logicamente tripla: uma parte é boa, a outra mediana e a terceira completamente perdida e depravada.

Janela Secreta (2004)

Johnny Depp de cara lavada é novidade. O desfecho de "Janela Secreta" também.
Só mesmo o fato de Johhny Depp aparecer de cara
lavada em um filme já é um motivo para o seu papel despertar a atenção. O roteiro inicial de "Janela Secreta" é pra lá de bom: o personagem de Depp após se separar da namorada, se refugia em sua velha e isolada casa de veraneio. Escritor perfeccionista, é surpreendido por alguém batendo em sua porta durante um dia comum. Do outro lado, um pitoresco (e misterioso) homem que afirma estar sendo vítima de plágio por Depp. No desenrolar da trama, as ameaças são cada vez mais consistentes, e o personagem tem a certeza de que não está cometendo plágio. O final do filme é no mínimo bombástico. E consegue, num mesmo passo, contradizer e esclarecer diversas passagens da história. É uma ótima sacada, e um bom filme.

O amigo oculto (2005)

Mesmo que Robert de Niro tenha se rendido à filmes inexpressivos ultimamente, sua presença nos longas sempre acaba valendo. E mesmo assim, o grande astro protagonizou ótimos filmes na última década, como esse excelente suspense dirigido pelo desconhecido John Polson.
Em "O amigo oculto", Dakota Fanning consegue chamar mais atenção que De Niro.
É a história de uma jovem menina (Dakota Fanning) e o pai (De Niro), que após a morte da mulher, se mudam de casa buscando novos ares. E, é claro, que como quase uma lei dos thrillers, a mudança de casa no início da história só piora as coisas. A personagem de Dakota afirma que tem um amigo imaginário. O Charles, que a princípio é amigável, logo produz grandes desastres, como uma enorme bagunça no quarto da menina, só para citar o mais leve deles. Pouco a pouco, De Niro se dá conta de que as trágicas obras só podem ser feitas por alguém de carne e osso. O elenco é ótimo e traz também as atrizes Elizabeth Shue e Melissa Leo.

Protegida por um anjo (2006)

Para Demi Moore, quase não há meio termo, ou se ama, ou se detesta. Mas não há como não aplaudir o seu ótimo papel (e interpretação) nesse suspense digno de Oscar. Sua personagem, uma escritora devastada após a morte do filho, viaja para uma casa de veraneio à beira mar.
Apesar das lembranças e aparições assustadoras do filho, ela parece reengatilhar sua vida no
vilarejo.
Demi Moore em um papel que desmistifica a sua incapacidade interpretativa.
Principalmente após conhecer um simpático rapaz. No entanto, com o passar dos belos dias ao lado dele, em uma certa manhã, ao não encontrá-lo em lugar
nenhum, ela pergunta aos moradores sobre
o seu paradeiro e recebe a informação que ele não existe. Aliás, que já morreu fazia décad
as. Começa um grande dilema para a moça. E o grande trunfo deste filme, é que
ele não corresponde ao óbvio e se marca pelas grandes surpresas. Sem dúvidas um grande momento na carreira de Demi Moore, goste a ou não.

Onde os fracos não tem vez (2007)

O grande vencedor do Oscar 2008 ainda não é considerada a obra prima dos Irmãos Coen - título atribuído à "Fargo", de 1996. Mesmo assim, "Onde os fracos não tem vez" é um exemplar suspense de perseguição. Tudo começa quand
o um vaqueiro (Josh Brolin) encontra uma maleta recheada de dólares em um deserto e a leva, sem ainda nenhuma intenção.
Perseguição tripla, um vilão icônico, Irmãos Coen. Clássico moderno instantâneo.
O dono da valise, um bandido incrivelmente frio vivido por Javiér Barden caça a qualquer custo quem levou o seu pertence, que por sua vez é roubado. Atrás dele, vai o bestial xerife Tomm
y Lee Jones, completando o ciclo de perseguições da história. Não é à toa que o filme se tornou icônico. O personagem de Bárdem, em uma interpretação antológica, entrou para o hall dos vilões mais lembrados do cinema contemporâneo, ao lado do coringa de Heath Ledger, em "O Cavaleiro das Trevas".

Os Estranhos (2008)

O filme mais assustador desta lista é também o menos genial, mas nem por isso desinteressante. Pelo contrário. Baseado em uma história real, é um retrato de como a violência e a falta de piedade podem ser completamente desumanas... nos humanos. É a história de um casal em crise que vai passar a noite, adivinhem: em uma casa isolada. Já é quase o fim da noite, e eles ainda não dormiram. Quando o clima esquenta entre o casal, alguém bate à porta. Já é um susto, simplesmente pelo
"Os Estranhos" é horripilantemente bom. Um feito.
acontecimento inusitado. Quem espera é uma moça, que diz ter se enganado de casa. Porém, logo em seguida, o local é rodeado por três pessoas mascaradas (uma delas a própria moça). Começa aí um reinado de terror aonde o casal infelizmente não tem escapatória. "Os estranhos" é bastante eficaz e reúne elementos de "O iluminado" e se parece muito com o também bom, mas inferior "Temos Vagas", de 2007. No final do filme, a personagem de Liv Tyler, assombrada e devastada por tanto medo pergunta aos mascarados qual o motivo de ela e o marido serem vítimas de tamanha violência e despudor. "Por que vocês estavam em casa", foi a resposta. Aliás, a história toda carece de explicações, a começar pela crise do casal no início do filme e pelo derradeiro final. Mas uma coisa é certa: o filme assusta.