O cinema teve dois grandes expoentes do terror, que foram
verdadeiros divisores de água do gênero.
O primeiro deles foi realizado por Alfred Hitchcock, em 1960.”Psicose”
se consolidou como a maior bilheteria do diretor britânico e tornou-se icônico
pela cena do esfaqueamento no chuveiro.
Em 1973, o novato William Friedkin dirigiu o mais
horripilante filme de terror da história, até então. “O exorcista” varou o século
20 como um registro inédito e arrebatador da menina que é possuída pelo
demônio. Cultuado até hoje, o filme ainda mete medo em muita gente.
| Psicose de Hitchcock, o terror pioneiro e icônico |
O grande sucesso de ambos os filmes rendeu inúmeras menções,
homenagens e sequências nas mais diversas mídias. De lá pra cá, nada de muito
inovador aconteceu no meio, salvo exceções, como filmes de baixa renda e alto
retorno financeiro. Neste grupo estão “A Bruxa de Blair” e a franquia
“Atividade Paranormal”, que mais funcionam como documentários realísticos de momentos
de terror envolvendo “gente de verdade”, e registrado por câmeras amadoras.
Há, claro, longas de terror que precederam Psicose e O
Exorcista. O clássico Nosferatu, personagem-título que é o avô dos vampirescos
atuais, data da segunda metade dos anos 20. O astro Vincent Price, que ficou
marcado pelos seus personagens sinistros na telona, atuou em vários filmes de
horror. Atuou neste gênero nos anos 50, 60, 70 e 80. No final de sua carreira
foi convidado para narrar o clipe “Thriller”, de Michael Jackson.
Já a estrela Joan Crawford, premiada com o Oscar de Melhor
Atriz por “Alma em Suplício” (1945), encerrou sua longeva trajetória artística
protagonizando filmes de terror de baixo orçamento. Crawford resolveu investir nesse gênero após o
estrondoso sucesso de “O que terá acontecido a Baby Jane?” (1962), poderoso
suspense em que ela atuou ao lado de Bette Davis. Em 1964, a lendária atriz
viveu a personagem principal do horripilante “Almas Mortas”.
Dirigido pelo excêntrico William Castle, o filme narra a história
de Lucy Harbin (Crawford), que ao chegar mais cedo de viagem, se depara com o
marido e a amante em sua cama. Sem mais delongas, Lucy mata os dois a
machadadas. A filha Carol, com poucos anos de idade, presencia as cenas brutais
e sanguinolentas. Lucy é considerada louca e internada em um sanatório. Vinte
anos depois, recebe alta e é hospedada pelo irmão, em seu sítio. Mas novos (e
inesperados) assassinatos a machadadas começam a ocorrer nas redondezas, e
claro, o suspense está montado.
| Quem te viu, quem te vê: a grande Joan Crawford interpretan- do o papel de uma assassina louca em um filme B. Vinte anos antes ela era a mocinha em uma sequência de bons e premiados filmes. |
A primeira vez que assisti esse filme foi em 2008, e suas
cenas, bem como os gritos de Joan Crawford, ficaram na minha cabeça por
bastante tempo. Apesar de ser, inevitavelmente, um filme ruim, é um grande
divertimento e não deixa de ser assustador. Confesso que, se um dia, eu realizar o meu grande sonho de
ser um cineasta, adoraria fazer um remake dessa pérola do cine B. Se isso fosse
hoje, escalaria Nicole Kidman, ou melhor ainda, Penélope Cruz, para encarnar o
papel principal. Poderia até não ser um filmaço, mas o faria por pura diversão,
assim como Scorsese fez em 91, regravando o terror clássico de 1961, “Cape
Fear”.
Na época das gravações de “Almas Mortas”, o diretor Castle
disse que o papel de Crawford lhe renderia seu segundo Oscar. Ele estava
redondamente enganado. Nem Oscar, nem Globo de Ouro, nem sequer uma mísera
indicação a nenhum prêmio de cinema. No filme, Crawford está por vezes
caricata, mas sempre com atuação firme e competente. Ela teve carta-branca e
chegou a escolher o figurino e parte do elenco. Hoje, pouca gente se lembra da magnitude de Joan Crawford. E
pouquíssimos conhecem “Almas Mortas”. Mas os verdadeiros fãs da atriz nutrem
uma verdadeira paixão pelo filme, mesmo sabendo que está longe de ser ótimo.
Dali pra frente, Crawford seria dirigida mais uma vez por
Castle, no suspense juvenil “Eu vi que foi você” (1965) como uma mera
coadjuvante (e ainda por cima desnecessária no andar da história). Seu canto de
cisne foi deplorável, mas ela ainda era a figura principal dos igualmente
horríveis Berserk (1968) e Trog (1970). A considerar que Crawford foi a atriz
que mais “vendia” nos anos 30 e uma das mais bem sucedidas na década seguinte,
foi um final de carreira literalmente de dar medo.